quinta-feira, 26 de novembro de 2015

MANUAL PRÁTICO

Manual Prático do Poeta Amador

Para iniciar esta seção vou contar porque comecei a escrever. Aliás já fiz isso com uma crônica e publicada em 2014, que reproduzo abaixo:

Da péssima memória
Sou conhecido pela péssima memória. Se não anotar naquele instante, a ideia desaparece. Some nas curvas da rotina. É soprada para bem distante e só ressurge tempos depois num momento inesperado. Algumas vezes leva anos. E novamente, se não anotar, ela segue dando voltas. Um grande carrossel. Um sistema planetário. Quando se dá um alinhamento, recordo. Depois segue outra vez em sua interminável rota.
Quando tinha pouca idade, fui enviado para Gravataí para dar continuidade nos estudos. Canoas estava com deficiência de escolas. Quem diria! Meus pais e os irmãos seguiram sua rotina. O trajeto entre as duas cidades, apesar de uma ter-se emancipado da outra, era muito complicado. Tomava-se um ônibus até Porto Alegre e desembarcava na Farrapos. Da lá um ônibus para Canoas via Assis Brasil. A autoestrada não existia. A parada mais próxima de nossa casa ficava a um quilômetro.
Talvez tenha sido isso, este afastamento da família, somado à fraca memória, que despertou em mim o gosto pela escrita. Era necessário registrar tudo que via em Gravataí, sob pena de esquecer as novidades para dizer aos irmãos. Alguém viria me buscar somente nas férias. Era um mundo estranho, apesar de ser minha cidade natal. Então eu escrevia tudo com fidelidade. Até chegarem as férias, lia e ia melhorando o que escrevera. Buscava um texto mais limpo, de melhor compreensão, evitando assim que os irmãos lessem e ficassem perguntando. Tudo o que precisavam saber deveria estar escrito. Creio que dá para dizer, sem sombra de dúvidas, que a péssima memória foi responsável pelo hábito de escrever. 


Das Coisas de Pouca Importância(2014- ed. Clube Literário)

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Nunca escreva por obrigação. Literatura é um estado de espírito. Camus já disse isso nas entrelinhas de seu romance: “Mas também esta noite não me sinto em forma. Tenho até dificuldade com o estilo de minhas frases. Falo com menos brilho. O tempo, sem dúvida. Respira-se mal, o ar está tão carregado que oprime o peito.” (A Queda, Albert Camus, romance, Ed. Record/Círculo do Livro, p.31).

É isso. Quando não se está num dia propício, evite escrever. É o que Camus faz. É o que faço. Literatura é coisa séria. Mesmo quando se escreve por entretenimento, o que é meu caso. 

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Ao terminar o texto, não o dê por concluído. É necessário um exame minucioso do que se escreveu, com leituras e mais leituras. Tantas quanto for necessário. Depois se deve deixar o texto repousando por um bom tempo, meses até. E só então fazer uma leitura final. 


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Utilizo esta seção apenas para dizer como escrevo. É esta, portanto, a única intensão que tenho quando escrevo este Manual Prático. Porque não há como ensinar alguém a escrever. Escrever é o resultado de muitas e muitas leituras. E de um desejo de envolver-se nas tramas que lê. E criar as próprias tramas.

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Explicado isso, parto para dicas que dei de como escrevo, no romance Canção para Ana (2016 - ed. Clube Literário)

- Vou direto ao assunto com uma situação que atraia o leitor. Que desperte nele o desejo de seguir lendo, um fato curioso, inusitado, irreal... (Fui direto ao assunto e com uma situação atraente): Este é o foco principal. Como foco secundário, o meu primeiro contato com a música, ainda na escola primária de Gravataí. Creio que os leitores já estão apreensivos para saber da minha infância em Gravataí e no desenvolvimento da vida em Corbelha. Vou misturando as duas fases para não deixar a leitura entediante.

Penso que comecei bem. Estou dentro do que manda o Manual Prático. Fui direto ao assunto e com uma situação atraente: “ Somente a mãe me acompanhou até o bar da rodoviária naquela manhã de janeiro”.  Com esta frase o leitor monta em seu pensamento as primeiras indagações.

- Não me preocupo que o leitor vá até o final do livro. Me preocupo apenas com as dez primeiras páginas. Conseguindo segurá-lo nestas dez páginas seguramente vou segurá-lo por mais dez. Aí é só seguir visando os múltiplos de dez.
(Não devo me preocupar em que ele leia a história até o final, mas as primeiras dez páginas. Conseguindo segurá-lo por dez páginas vou conseguir levá-lo por mais dez. Aí é só seguir visando os múltiplos de dez).

- Evito o “mas”. Sempre que posso substituo por “e” ou outro pronome (?). na maioria das vezes troco por um ponto e inicio nova frase.
(Preciso também evitar o “mas” e trocá-los todos por “e” ou outro substitutivo. Ou mesmo por um ponto.)

- Cuido para não me tornar repetitivo. Salvo se houver necessidade de buscar o assunto para que o leitor não se perca, pela distância em que o assunto voltou a ser tratado, ou pela importância daquele assunto no contexto. Fora isso, dei a informação, que trate de gravar.

- Mantenho sempre o foco para que haja uma boa conclusão do raciocínio. Evito devaneios que podem me tirar totalmente do que pretendo. (Sei que preciso manter o foco ou não conseguirei concluir o raciocínio. Falar da chuva é apenas devaneio e vai me desviar do principal.)

-Sempre procuro responder seis perguntas fundamentais:
O quê? Quem? Quando? Onde? Como? Por quê?

Montei na minha cabeça o internato, as meninas correndo pelo pátio, os meninos curiosos... A cena brotou na minha cabeça e usei toda a minha habilidade de pensar de forma lógica, ordenada e prática.
- Procuro ser...
racionais e responsáveis quando lidamos com literatura.

Um livro escrito é para sempre. Morreremos e o livro continuará numa estante para nossa glória ou para a vergonha de nossos netos e bisnetos. Se o autor não se empenhar, não der tudo de si, traduzindo com fidelidade seus sentimentos, restará um lamentável engano literário. As regras para escrever são simples. Elas seguem a linguagem oral. Tão simples que é a primeira arte que o ser humano domina. Todos sabem falar. Tão logo nascemos já ficam nos adestrando: “Diz papai. Diz mamãe”. E aí nasce a escrita e a concatenação das ideias daqueles que enveredarão pela literatura. Você não consegue enganar com literatura. Todo o autor, reconhecido ou anônimo, tem a obrigação de prender o leitor até a última página.
-Evito cacofonias: “Ninguém por lá tinha um rádio senão ele. Creio que ficou mal, no parágrafo anterior, a junção de “lá” e “tinha”. Lido rápido fica parecendo “latinha”, uma lata pequena. Vou riscar o “por lá”. Não faz falta alguma. Então fica: “Ninguém tinha um rádio senão ele”. O leitor percebe que é “lá” na hospedaria.

Enquanto escrevo devo me imaginar diante de um leitor atento. Minha preocupação deve ser com o entretenimento e a elegância das frases. É como se este leitor conversasse comigo. Trocasse ideias. E escrever da maneira mais natural possível, espaçando as frases e sem pressa para chegar ao final. O objetivo do romance é o entretenimento. É necessário narrá-lo de maneira que o leitor se sinta parte do contexto. Que fique na expectativa, enquanto lê, de que vai encontrar a si mesmo a qualquer momento numa cena que pode mudar tudo. Vai criando aquela sensação de que ele pode intervir no que está lendo. Que pode denunciar uma traição. Ou interromperá uma conspiração. Talvez incentivar um amor que mudará o rumo da humanidade. Ai você tem a certeza que este leitor está aprisionado até o final


Já pensei tantas vezes em começar e em tantas vezes desisti que imaginava não conseguir fazê-lo. Mas agora que passei das dez páginas seguirei até o final. Algumas coisas estarão fora da ordem cronológica. O editor disse para escrever tudo que lembrava e que depois se daria um jeito. Que não me preocupasse muito com pontos, vírgulas, concordâncias... Que o importante era escrever. E agora preciso fazê-lo. Disse ele que só vai liberar a segunda parcela do contrato quando receber estas dez primeiras páginas. É que fica difícil escrever com esta obrigação. A coisa perde um pouco a espontaneidade. A escrita tem que ser um entretenimento tanto para o leitor quanto para o autor. De qualquer forma tenho que continuar escrevendo com este intuito. De que este texto me levará ao Nobel de Literatura. Não sendo assim o melhor é mudar de atividade. Se não estamos nos empenhando ao máximo o texto se tornará maçante.
Estou divagando outra vez. Preciso manter o foco. Algumas vezes me animo, escrevo algo, um início, mas fico só na animação. As palavras não veem. Não que eu não tenha uma mente criativa e cheia de imaginação. Que não fosse capaz de juntar todos os fatos e alinhavar com invenções para dar uma melhor fluidez e um melhor desenrolar. Mas as palavras fogem. Agora prometi a mim mesmo que seguirei até o fim. Como um soldado em uma missão. Tenho certeza que vou fazê-lo. Darei cabo nesta missão. Basta apenas uma ajudazinha da memória e apresentarei estas primeiras páginas. E o editor me dirá se estou no caminho certo e me pagará a segunda parcela.

Preciso me manter nas frases curtas. São mais convincentes. Uma frase longa fará com que o leitor se perca por não ter tempo para respirar. Com isso não tropeço tanto nas conjunções, nas vírgulas e nas concordâncias. E no máximo trinta palavras por frase. Sem excluir as preposições da contagem. Vinicius de Morais já esclareceu que uma frase longa nada mais é do que duas frases pequenas. Tenho que me orientar pelo mestre. E não basta dividir as frases apenas, mas reduzi-las. Cortes. Cortes. Cortes. O texto deve ser enxuto para não se tornar cansativo. Agora vou continuar escrevendo, pois já fiz os outros ajustes.


, encontrei no texto original duas vezes a palavra “além”. É péssima a repetição de palavras dentro do mesmo parágrafo. “Além das hortaliças miúdas...” e “Além dos chiqueiros para engorda...”. Depois de muito pensar troquei por: “Havia as hortaliças miúdas...”. “Havia” é bem melhor que “tinha”. E no caso do chiqueiro apenas saquei fora a palavra “além”. Queria retirar apenas um “além”, mas ao reler percebi a falta de boa sonoridade desta palavra dentro do parágrafo e resolvi cortar as duas. Nesta revisão resolvi também retirar o verbo “tinha”: “Tinha também o tambo, estábulo de ordenha, com boa produção leiteira...” Três palavras iniciando com “t” “Tinha também o tambo...” na sequência não ficam bem. E as palavras “também” e “tambo” juntas soam mal. Troquei tudo. Retirei o “tambo” e deixei só o “estábulo de ordenha”. Assim: “E o estábulo de ordenha com boa produção leiteira”. Está difícil, mas sei que vou superar esta dificuldade e acabarei escrevendo minha história direitinho, conforme o editor pediu.


Utilizei muito o termo “Rato Branco”. O editor não vai gostar. Vai mandar cortar algumas vezes, substituir por pronomes que indiquem que estou falando do Rato Branco sem dizer “Rato Branco”.

E mantive o hábito de me impressionar com algo bem escrito e desenvolver um texto a partir daí. No meio de uma leitura encontro uma frase inspirada. E parto dali para criar algo. Uma deixa que o escritor não aproveitou e me aproprio. Não devemos confundir com plágio. É como a Erica Jong diante do Paraquedas e Beijos do Neruda. Que belíssimo romance desenvolvido a partir da deixa do poeta. Um verso puro do poema que se transformou num romance.


Esses passeios solitários me agradavam bastante. Era onde coletava as imagens que impregnava nos poemas. A paisagem bucólica da chácara era muito bela e estava sempre descobrindo novos encantos.

Eu sempre brinco que é importante para se fazer um poeta há que se fazer necessário a descoberta entre as expressões “mulher pelada” e mulher nua”. É como ouvindo e escutando. Estou escutando uma música. Estou ouvindo uma música. Buscar palavras que melhor se encaixam no que pretendemos dizer.

No meio da noite, um intervalo. Alguém nos pagou uma cerveja. Ainda não sabia qual o gosto de uma cerveja. Apenas o Reni César já havia provado cerveja. Escrevi três vezes a palavra cerveja no mesmo parágrafo. Tenho que mudar isso.
Acho que já falei do mobiliário da cozinha. Esta parte da literatura é um pouco cansativa. Reler, reler e reler garimpando as repetições, as palavras desnecessárias e o tempo do verbo.


Reverei este parágrafo, senhor editor. Não encerrou da forma que eu gostaria. Prometo que vou modificá-lo. Ficou muito simplório. Preciso algo mais poético, como o canto de um sabiá, uma chuva fininha ou qualquer outra coisa.

Esta parte da literatura é um pouco cansativa. Reler, reler e reler garimpando as repetições, as palavras desnecessárias e o tempo do verbo

Tenho que cortar esta cena. Além de ser uma imitação do Gorki está muito mal narrada. O Gorki vai me perseguir quando eu chegar no céu. Além disso, tem cacoetes literários. Veja o que diz três parágrafos acima: “O toque firme de um sapato...”, isto me parece um poema que recitava no bar: “O toque firme de um dó...”.

Acho que já falei que ele partiu no mesmo dia. Mas as ordens das coisas não importam neste primeiro momento. Depois se faz as releituras e vamos ajustando os erros. Foi o que disse o editor. E tenho que evitar o “mas”. Não posso esquecer isso.



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